sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Chega de Fado e Histórias do Barco da Velha lançados no final da manhã


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
A manhã do segundo dia do Correntes d'Escritas terminou com a apresentação, na Casa da Juventude, de Chega de Fado, de Paulo Kellerman, e Histórias do Barco da Velha, de Pedro Teixeira Neves.
Paulo Kellerman participa no Encontro de Escritores pela primeira vez. Afirma que escolheu uma “estranha forma de literatura: sou contista”, assume. Neste livro “coloco questões. Questiono as minhas certezas e pretendo que o leitor questione as suas”. O autor define esta obra como sendo “um catálogo de possibilidades, de alternativas”. “Escrevo sobre os relacionamentos humanos” e quanto às vinte personagens que Paulo Kellerman criou para este livro “caracterizam as faltas de investimento nas relações, o conformismo, a apatia”, explicou o autor. Nasce, assim, uma radiografia desapaixonada e incisiva do quotidiano, um retrato cru dos gestos e dos silêncios, das banalidades e das frustrações, das esperanças e dos secretismos que atravessam as relações e caracterizam a precariedade e imprevisibilidade dos comportamentos e sentimentos de todos nós. Mas, a certa altura, as personagens têm vontade de gritar “chega desta lamúria, Chega de Fado”.
Pedro Teixeira Neves escreveu e Rute Reimão ilustrou. Histórias do Barco da Velha é um livro infantil onde as personagens vivem situações bizarras. Para o autor, o resultado final é “fantástico. O livro merece esta dignidade. O trabalho da Rute parece que quer sair do papel e a conjugação entre a escrita e a ilustração tornam os livros infantis pequenas obras de arte”. Pedro Teixeira Neves confessou que “se para mim, que sou daltónico e vejo o mundo todo verde, o trabalho da Rute está incrível, imagino para vocês”.
Rute Reimão contou que “adoro sujar as mãos. Apesar de trabalhar com o computador diariamente, pois também sou designer gráfica, recuso-me a fazer ilustrações no computador”. A ilustradora comentou que “o meu ateliê parece um ferro-velho, mas ainda sem o ferro. Estou sempre à procura de botões, de rendas, de novos materiais para os livros”.
Os lançamentos no Correntes d'Escritas continuam hoje à tarde, às 17h00, na Casa da Juventude, com Isaac Rosa, com O País do Medo, e Zuenir Ventura, com Inveja – Mal Secreto”.

Pedra, palavra, verso, poema na segunda mesa de debate

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
Pedra a pedra, constrói-se a poesia. Este foi o tema de mesa de debate desta manhã, no Auditório Municipal, e que contou com as intervenções de Manuel Rui, Maria Teresa Horta, Pedro Teixeira Neves, Rosa Alice Branco, Tiago Gomes e com José Carlos de Vasconcelos na moderação.
Dedicando o seu texto ao povo madeirense, Manuel Rui considera que “as palavras também sofrem como as colinas que se fazem explodir, para se diminuírem pedra a pedra”, transformando-se numa “estátua de palavras mudas”. “Também ficam operárias como as mãos, pedra a pedra, na arte anónima das calçadas, para pisar, palavra a palavra”, dizendo, no entanto, que “nunca terei arte para lapidar uma pedra preciosa. Mas sei tocar, pedra a pedra, as pedras que tenho nas mãos e nos sonhos”.
Para Maria Teresa Horta não é só pedra a pedra que se constrói a poesia. É também corpo a corpo “sedução e pose, discurso do desejo a seduzir as palavras”, rigor a rigor, musa a musa, avidez a avidez, insubordinação a insubordinação, “cuidando de desmanchar as regras dos poemas, as imposições, as disciplinas”. Defendendo que “a escrita nunca esquece, nunca redime nem sublima”, Maria Teresa Horta terminou a sua intervenção dizendo que “aí, onde tu estás, é o começo da escrita”.
Seguiu-se Pedro Teixeira Neves, que também dedicou o seu texto à Madeira, ou não fosse a sua família de lá e ele tivesse nascido no continente “por acaso”. O escritor e jornalista tratou de apontar as várias semelhanças e diferenças entre pedra e poesia. “O poeta monumenta as emoções, por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais”. Considera ainda que o poeta é um pedreiro “cujas pedras traz no peito” mas, como referiu, não convém que “transforme o poema num muro de lamentações”. Tal como as pedras, os poemas também corrompem e magoam. “Com pedras constroem-se casas, com poemas constroem-se abrigos”, acrescentou, considerando ainda, nesta relação de aproximação entre pedra e poema que, “com uma pedra pouco podemos, com uma palavra podemos muito mais”.
Mas nem tudo são semelhanças. De facto, e ao contrário dos poemas, as pedras não amadurecem, não surgem do nada, não fingem. Os poetas são impacientes, a poesia tem identidade. E existem pedras raras “mas os grandes poetas muito mais raros são”. Não podemos viver sem poesia, mas há quem pareça “conseguir viver sem poesia”. E se uma pedra é apenas uma pedra, “a poesia é sempre mais do que aquilo que parece ser”.

Rosa Alice Branco apoiou-se numa “extraordinária”dissertação de Vítor Hugo sobre a arquitectura como o grande livro da Humanidade. “Ao falar da arquitectura como arte soberana, Vítor Hugo declara que toda a História dos Homens, durante muito tempo, se pode ler nesta arte feita de pedra”. Assim, e à semelhança da escrita, também a arquitectura “se iniciou com letras, ou seja, o Homem começou a aprender a usar o alfabeto de pedra”. “Eu quando escrevo poemas é porque amo as palavras”, justificou, “o modo inusitado como tudo muda quando as palavras se juntam em versos e quando de verso em verso, pedra a pedra, todas se conjugam num poema”. E um poema só é poema, ou seja, as pedras estão no lugar quando, como explicou, “nada foge ao ritmo do corpo, debruçado à janela das palavras”.
Estreante no Correntes d’Esxcritas, tal como Rosa Alice Branco, Tiago Gomes confessou que pouco tempo teve para “alinhavar umas pedrinhas”. Sobre o tema, considerou que, no seu caso, “pedra a pedra também se desconstrói e destrói a poesia. Disse-me a Lídia Jorge há 20 anos atrás que a poesia devia ser burilada, trabalhada, esculpida”. E por isso leu um texto, “O Uso das Palavras”, de Nathalie Sarraute, de forma a ilustrar o efeito que as palavras têm quando aparecem.
Um pouco afastado da literatura, tem trabalhado “nas palavras ditas. Faço letras para bandas rock. Estou a tentar educar os músicos, que às vezes são um pouco bárbaros mas que também gostam de poesia”.

Ana Luísa Amaral e Ivo Machado dão voz às palavras na Escola Dr. Flávio Gonçalves

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
A voz das palavras foi o tema que levou os escritores Ana Luísa Amaral e Ivo Machado à Escola E.B. 2/3 Dr. Flávio Gonçalves, esta manhã.
“Quem escreve dá voz às palavras, quem as lê dá-lhes outra voz”, assim o entende Ana Luísa Amaral que revelou nunca saber como é que um poema seu vai ser lido, isto porque “a voz é dada ao poema consoante o lado em que se está”. A escritora e professora disse ainda que “o poeta escreve quando tem necessidade de o fazer”, confessando que “escrevo poesia de forma muito inesperada”. “Há outros momentos, às vezes duas ou três da manhã, em pleno silêncio, em que tenho a sorte de uma visitação.” acrescentou Ana Luísa Amaral divulgando que também já lhe aconteceu escrever enquanto cozinha, como é o caso do poema “Leite creme” escrito enquanto fazia vitela assada.

A propósito do verso “Todos os dias alimento uma paz pequena” da sua autoria, Ana Luísa Amaral esclareceu os alunos respondendo que a “paz pequena” é “a minha normalidade, o meu refúgio, aquilo que me salva à minha volta. É a minha forma de me tentar proteger da violência e injustiça que me rodeiam”.
Sobre a voz das palavras, Ivo Machado referiu que “um livro só é livro quando o manuseamos, o lemos, o amamos”, ou seja “quando damos voz às palavras” acrescentando que “o processo de construção de um poema pode levar uma vida. O poema está sempre em construção.”. Sobre a sua relação com as palavras, o escritor afirmou que é como de um pai com o filho pois ama-as a todas e considera que são essenciais na sua vida, “tal como os meus filhos”, não sendo capaz de abdicar de umas palavras em relação a outras. Ivo Machado disse que existe um jogo de sedução do poeta com as palavras, sendo que “muitas vezes são elas que se nos impõem e pedem para ser usadas”. Sobre a sua escrita, referiu ainda que “toda a minha poesia é uma poesia de memória”, onde está presente a ilha onde nasceu “transporto a ilha em mim, apesar de já não viver lá”, reflectindo toda a ruralidade do lugar, pois considera que “todos nós somos uma consequência do nosso lugar de nascimento”. Questionado sobre a presença dos malmequeres na sua escrita, Ivo Machado afirmou que é “uma flor bonita e extremamente simples, que transporta uma magia que me acompanha desde a adolescência”, marcando as primeiras paixões e uma fase da sua vida.


Antes de encerrarem a sessão com a leitura de poemas da sua autoria, Ana Luísa Amaral e Ivo Machado revelaram que não são capazes de escrever um poema directamente no computador, o processo de escrita faz-se no papel com lápis ou caneta e muitas vezes no silêncio da noite.
As Correntes d’Escritas visitam outras escolas do concelho levando os escritores ao encontro dos alunos. No
portal municipal pode conhecer toda a programação do evento e acompanhá-lo diariamente.



Seis livros apresentados ontem à noite no Correntes d'Escritas


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
As tertúlias à volta dos livros são a marca das noites do Correntes d'Escritas. Ontem foram apresentadas seis obras no Axis Vermar: Três vidas ao espelho, de Manuel da Silva Ramos; Inversos – Poesia 1990-2010; de Ana Luísa Amaral; O passado que seremos, de Inês Botelho; A lucidez do amor; de Tânia Ganho; A ordem do tigre, de J.J. Armas Marcelo; e Cinco de Outubro, de Lourenço Pereira Coutinho.
Manuel da Silva Ramos considera a sua última obra “não como uma mala de cartão, mas uma caixa de Pandora cheia de gargalhadas”. Para o autor, “este é um livro que ri e dói em andamento”. Este é um romance alegre e reparador, o elogio do emigrante português e dos contrabandistas da raia que tiveram um papel crucial na economia das regiões portuguesas vizinhas da fronteira espanhola.
Três vidas ao espelho conta a história de dois emigrantes que tiveram sucesso e mostra, de uma maneira detalhada, a vida nos finais dos anos quarenta de uma aldeia portuguesa perdida entre pedras e solidão, nos arredores de Vilar Formoso. Estas três vidas ao espelho, escolhidas entre milhentas outras da nossa diáspora, têm a pretensão de ser um poderoso elixir para desenvolver a nossa auto-estima nacional. Porque os três homens simples deste romance são heróis categóricos à sua maneira.
Ana Luísa Amaral leu quatro poemas da sua obra Inversos – Poesia 1990-2010. O livro reúne a poesia da autora dos últimos 20 anos e onde também constam alguns textos inéditos. Relembramos que a poetisa venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa em 2007 com a obra A
Inês Botelho tem 23 anos e escreveu O passado que seremos. O livro traz-nos a história de um casal que, como tantos outros, sobrevivem em realidades diferentes. Elisa e Alexandre conhecem-se num fim-de-semana no Caramulo. São ambos jovens, pertencem a círculos diferentes, vêem o mundo de perspectivas quase sempre opostas – e, no entanto, parecem incapazes de escapar à atracção que lentamente os envolve. Com avanços e recuos, iniciam então uma relação que não entendem e questionam. Mas que os marcará para sempre.
“A lucidez do amor foi escrita quando tinha acabado de ter o meu filho. Em vez de escrever sobre os deleites da maternidade, resolvi debruçar-me sobre a guerra no Afeganistão.” Tânia Ganho explicou que a guerra é um tema que fascina a maior parte dos escritores, porque mostra o melhor e o pior do ser humano. Em A lucidez do amor, uns meses depois do 11 de Setembro, Michael Adam, piloto da Força Aérea francesa, é enviado para o Afeganistão no âmbito da luta contra o terrorismo. Passados quatro anos, parte novamente em missão, mas desta vez com plena consciência da natureza letal do seu trabalho. É com o inquietante pressentimento de que poderá não regressar a casa que se despede da mulher, Paula, e do filho recém-nascido. Atirada para um mundo sem homens, Paula é obrigada a tornar-se mãe solteira e a criar laços de amizade com o heterogéneo grupo de mulheres que a rodeia e que vive ao ritmo do toque do telefone – até ao dia em que as linhas ficam mudas…
J.J. Armas Marcelo apresentou A ordem do tigre, um romance que analisa com dureza e sem complacência os traumas da Argentina. Morelba a Tigra desapareceu e Álvaro Montes tem de regressar a Buenos Aires para a encontrar. Passaram muitos anos desde que, em 1975, numa viagem à Argentina, Álvaro e os loucos jovens com os quais percorreu os canais e os rios do Delta fundaram, na brincadeira, a Ordem do Tigre. Passou muito tempo desde que se enamorou de Morelba. No final do Século está tudo diferente: os seus amigos sofreram os golpes do amor e da política, converteram-se em cúmplices da ditadura ou em militantes clandestinos. Álvaro regressa ao passado para reviver a intensidade de uns dias que ainda permanecem na sua memória, apesar da distância e por cima da dor.
Por fim, Lourenço Pereira Coutinho apresentou Cinco de Outubro. O autor afirmou que gosta de encontrar nas suas obras duas personagens antagónicas, que mostrem os lados diferentes da história. Sobre a sua obra: D. Manuel II enfrentava nova crise governamental, após a queda do ministério Veiga Beirão. Entretanto, revolucionários e carbonários organizavam reuniões desencontradas, para o derrube da monarquia. Cinco de Outubro acompanha os percursos dos principais protagonistas da época – D. Manuel II, Teixeira de Sousa, Paiva Couceiro, Afonso Costa, Machado Santos –, que se cruzam com personagens ficcionados, numa narrativa de intensidade crescente que culmina nos dias da revolução republicana: 3, 4 e 5 de Outubro.
Os lançamentos continuam hoje às 12h30, desta vez na Casa da Juventude, com as obras de Paulo Kellerman e Pedro Teixeira Neves.

Biblioteca organiza Semana da Lectura


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
Na próxima segunda-feira terá início a Semana da Leitura, uma iniciativa lançada pelo Ministério da Cultura, no âmbito do projecto Plano Nacional de Leitura, e desde sempre acolhida pelo Pelouro da Cultura. De 1 a 6 de Março, a Biblioteca Municipal realizará diversas iniciativas, quer no seu próprio espaço, quer em vários estabelecimentos de ensino do concelho. Formar novos leitores é o objectivo desta iniciativa.
A Escola EB1 de Terroso será a primeira a receber uma visita nesta Semana da Leitura. Na segunda-feira, nesta escola, será realizada a iniciativa “Eu e a Poesia”, uma sessão de poesia marcada pelo livro O meu primeiro álbum de poesia, de Alice Vieira. Os utentes do Instituto Maria da Paz Varzim vão, no mesmo dia, participar na actividade “Tricotando sonhos”, onde através de objectos são contadas histórias.
Na terça-feira, os técnicos da Biblioteca vão visitar o Jardim de Infância Pires Quesado com a actividade “Uma história para ouvir”, narração e dramatização da história Sopa de Letras, de João Manuel Ribeiro. Nesse dia, o Instituto Maria da Paz Varzim volta à Biblioteca, desta vez para participar em “Histórias em Labirinto”, onde as crianças poderão inventar um fim para os contos.
Na quarta-feira, alunos da Escola do Desterro, da Escola dos Sininhos e da Escola Nova vão à Biblioteca para estar com o escritor João Manuel Ribeiro em duas actividades: “Oficina de Escrita Criativa” e “Vamos brincar com histórias de rimar”. Ainda na quarta-feira, a Biblioteca irá realizar uma sessão de Destrava-Línguas, Lenga-lengas, Rimas, Provérbios e Acrósticos sobre livros, leitura e biblioteca. Na quinta-feira, repete-se a actividade “Tricotando sonhos” para os utentes do Centro Social Monsenhor Pires Quesado e “Era uma vez… uma folha de papel”, uma viagem até ao aparecimento da escrita e dos seus suportes. Também os idosos terão lugar nesta Semana da Leitura e no dia 4, no Centro Social e Paroquial de Terroso, haverá uma sessão de leitura animada.
Na sexta-feira, a Escola do Desterro, o Centro Social de S. Pedro de Rates, a Escola Nova e o Instituo Madre Matilde vão receber a visita de técnicos da Biblioteca com as actividades “Um conto contado e recontado”, as crianças ouvem e recontam a história apresentada; “Palavra puxa palavra”, a partir de uma palavra, e depois frases, as crianças vão escrever textos com princípio, meio e fim; “O meu boneco, a minha história”, apelo à criatividade da criança para construir uma história para a sua personagem e “Era uma vez… uma folha de papel”.
No sábado, a Biblioteca levará a cabo a habitual iniciativa “Sábados Mágicos...Leituras encantadas”, uma sessão de contos para pais e filhos, seguidos de ateliês de expressão plástica e de escrita lúdica.
Uma semana recheada de actividades pedagógicas, divertidas e que estimulam a imaginação dos leitores do futuro.

Paradoxos, perguntas e poucas respostas – assim foi a primeira mesa de debate

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
“Escrevo para desiludir com mérito”, parte de uma frase de Agustina Bessa-Luís, foi o tema da 1ª mesa do Correntes d’Escritas, reunindo sete escritores, seis deles presentes pela primeira vez no Encontro.
A Catherine Dumas coube o papel de moderar o debate e avançar já com algumas ideias sobre o tema. “Quando lemos Agustina Bessa-Luís temos mais perguntas que respostas”, disse, antevendo as inúmeras questões que o aforismo “Escrevo para desiludir com mérito” iria levantar no Auditório Municipal.
“É um tema que vai para lá do críptico”, concordou Ana Luísa Amaral. Defendeu que todo o poema é sobre aquele que escreve, mas, ainda assim, a poetisa colocou várias questões. “Quem dá mérito? Quem outorga o valor? Quem escreve ou quem lê? E quem desilude? E se não houver leitor?”. Por entre as perguntas, Ana Luísa Amaral acabou por considerar que, de facto, não tinha resposta a este aforismo de Agustina Bessa-Luís. “Só dúvidas. A frase é toda ela feita de possibilidades”. Na sua opinião, o escritor quando escreve não pensa em que o vai ler mas sim no diálogo com ele próprio. Ora então, concluiu, a desilusão ou a ilusão é do próprio.
Primeiro Eduardo Pitta pensou que esta era uma frase infeliz. Depois, esta manhã, soube que era da autoria de Agustina Bessa-Luís. “Só podia ser dela”, afirmou o autor que acredita que “sempre que escrevemos estamos a desiludir até a nós próprios e seguramente os que estão à nossa volta. A escrita é sempre uma desilusão, mesmo para quem faz”. E de forma a ilustrar esta opinião, leu um poema de sua autoria, acerca de D. Pedro e D. Inês de Castro “em que eu faço uma leitura um pouco lateral à versão oficial”.
Fernando J. B. Martinho contou que a frase/tema de debate foi uma resposta de Agustina Bessa-Luís a um jornalista que lhe perguntou “a mais impertinente pergunta que se faz a um escritor – Porque escreve?”. “Escrevo para desiludir com mérito, que é a maneira de se fazer lembrar com virtude”, respondeu Agustina Bessa-Luís. “O paradoxo é a arma preferida de Agustina do seu riquíssimo arsenal retórico”, defendeu Fernando J. B. Martinho, mas, acabou por contar, só há mesmo uma resposta a dar “Porque escreve? Não se sabe exactamente”.
“Não esperem de mim esta erudição”, pediu Francisco Moita Flores, no início do seu contributo para este debate. Contou que, em criança, o seu pai comprava livros proibidos, que disfarçava forrando a capa com jornal. Tal fez com que Moita Flores lesse os livros do pai “antes de ler os Livros dos 5”. Depois, na escola, teve como professor de Português Manuel Marques da Cruz, “que amava Camões e lia Os Lusíadas a chorar”. E apesar de os alunos odiarem Os Lusíadas devido ao exercício de dividir orações, a verdade é que quando era o professor a ler, “a sua leitura trazia expectativas de esperança”.
Ao longo da sua vida, Moita Flores percebeu o que era censura, percebeu o que era poesia de combate. “Naquele tempo a poesia era uma arma, o poder tinha medo das palavras”. Depois, entrou na Polícia Judiciária. “Os meus olhos não são como os olhos dos outros escritores. Eu não tratava dos casos de crimes de gravata. Eu tratava dos homicídios, dos assaltos à mão armada. Vim desse mundo, do mundo da morte, do mundo do cadáver, das lágrimas, do sofrimento”. Até que surgiu a escrita, “de uma forma fluida, mais pelos escritores que fui lendo, fui escrevendo, em jornais, em revistas, depois fiz teatro, ensaios, até que comecei a escrever ficção, no cinema”. E foi aqui que Francisco Moita Flores se apercebeu que outros viam mais do que ele naquilo que escrevia. Os críticos, por exemplo, “diziam coisas que eu nunca vi”. E contando que a filha, a concorrer para um concurso de escrita lhe foi mostrar o trabalho para o pai ver se achava merecedor de um prémio, respondeu-lhe Moita Flores “Não te preocupes em ganhar prémios. Preocupa-te em seres como és”. Uma posição que o escritor e investigador aprendeu “com os homens que fizeram da escrita uma arma”.

Tentando desconstruir o tema, Gilda Nunes Barata avançou que o próprio nascimento ” já é desilusão, o corte do cordão umbilical é desilusão”. A criação, um começo, feito através de palavras e não palavras, tenta “desdobrar o conceito em momentos”. Levantando também ela algumas questões perguntou qual o acto criativo “que não quer ser contraditório”. E, na sua opinião, a desilusão tem sempre duas direcções: “desiludir, voltar a desiludir”.
Lamentando-se com a fraca sorte de ter um nome começado em Z, que o obriga a ser o último, Zuenir Ventura, jornalista e escritor brasileiro, trouxe boas gargalhas ao Auditório. “Também não sabia que esta frase era da Agustina, mas, se permitirem a paródia, na minha opinião é ‘Eu escrevo para iludir com mérito’. Eu não gosto de escrever, eu gosto de ter escrito”, brincou. “ É que esta é uma tarefa penosa, temos que procurar o adjectivo certo”, exemplificou. Uma afirmação estranha para quem escolheu ser jornalista e, posteriormente, escritor. Mas Zuenir Ventura contou que até tal escolha de profissões foi um acaso. “Nunca pensei ser jornalista nem escritor, mas não consigo viver sem fazer outra coisa”. Anda assim entre dois mundos, um pede realidade, outro pede ficção. A escrita, essa já se tornou uma segunda pele para o escritor que, para exemplificar esta dualidade entre realidade e ficção, entre ilusão e desilusão, contou como, hoje de manhã, lhe perguntaram se Cátia, personagem do livro Inveja – Mal Secreto (que o autor irá apresentar amanhã no decorrer do Correntes) era real. “Ali tudo é mentira, com algumas verdades. “
E assim se mataram as saudades dos debates animados que Correntes d’Escritas sempre proporcionou. Amanhã há mais, às 10h30, com a 2ª mesa de debate, novamente no Auditório Municipal.
Para mais informações, sobre o programa, os convidados ou outras actividades, visite o portal municipal em
www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ministra da Educação instiga ao prazer da leitura em Conferência de Abertura do Correntes

Isabel Alçada e José Carlos de Vasconcelos

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, é um estímulo ao desenvolvimento intelectual insubstituível.” referiu Isabel Alçada, Ministra da Educação, esta tarde na Conferência de Abertura do Correntes d’Escritas.

A propósito de Leitura, Escrita e Educação, a ministra e escritora falou essencialmente do Plano Nacional de Leitura, iniciativa do Governo de que foi comissária. “Na origem esteve a intenção de criar leitores” revelou Isabel Alçada referindo-se a este projecto que tem como objectivo central elevar os níveis de literacia dos portugueses e colocar o país a par dos nossos parceiros europeus. O Plano Nacional de Leitura é nítido no quadro educativo, associando educação e cultura, sob a máxima “cada leitor pode ser promotor de leitura”, afirmou a ministra. Quanto à orientação seguida pelo Plano, a escritora disse que foi para que houvesse um aconselhamento de leituras com total abertura, disponibilizando para o efeito conjuntos de listas de livros bastante amplas sugerindo que a leitura fosse feita em primeiro lugar na sala de aula. Deste modo, haveria maior equidade permitindo às crianças que não têm quem as incentive a ler um contacto mais próximo com o livro. “Colocando o livro na sala de aula, temos a certeza que ninguém escapa”, afirmou, acrescentando que “os livros têm de ser lidos na íntegra, de fio a pavio”. A escritora considera que quanto mais cedo a leitura até ao fim, melhor para o desenvolvimento desta competência que se torna mais enriquecedora quanto maior a diversidade de leituras que conduz à multiplicação de experiências. Suscitar a leitura através da experimentação do prazer de ler é fundamental para Isabel Alçada que acha que o leitor tem que se sentir mergulhado na leitura e para tal revelou que procurou seguir uma via “capturar a atenção e o interesse do leitor desde o primeiro parágrafo e manter essa atenção e interesse garantindo que o livro seria lido até ao fim”.


Isabel Alçada lembrou ainda que o Plano Nacional de Leitura surgiu a partir de um terreno sólido que são as bibliotecas, em primeiro lugar, as públicas que têm feito um trabalho muitíssimo importante e “são um equipamento estruturante na promoção das leitura e da escrita” e também as bibliotecas escolares, que através da Rede de Bibliotecas Escolares chega já a três mil escolas e que o governo pretende continuar a desenvolver alargando a escolas do 1º ciclo e jardins-de-infância dispondo este ano de 1,6 milhões de euros para o efeito.
Para expressar a preocupação sentida em identificar o que é mais apropriado para as crianças lerem, a ministra recorreu a uma passagem da obra Da Educação de Almeida Garrett em que o autor faz a seguinte recomendação de um livro a uma criança de dez anos, “deve ser um livro de história o primeiro que aos meninos se dê, uma história de factos singelamente contados em linguagem casta e fluente”.
Acompanhe o Correntes d’Escritas no
portal municipal, onde pode também consultar o programa e participantes.

Feira do Livro arranca hoje com o Correntes d'Escritas


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
A partir de hoje, a Casa da Juventude acolhe a Feira do Livro, inserida da 11ª edição do Correntes d'Escritas. Até sábado, dia do encerramento do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, poderá encontrar neste espaço uma infinidade de títulos, muitos deles da autoria de escritores que participam ou que já participaram no evento. Uma oportunidade para adquirir uma obra do seu escritor preferido presente nesta edição e, logo de seguida, pedir uma dedicatória especial para si. Afinal, o Correntes d'Escritas é isto mesmo, um Encontro de cumplicidades e afectos onde os escritores, autores dos livros que nos fazem sonhar, viajar, rir e chorar, convivem tão proximamente com os seus leitores.
Esteja atento ao
Portal Municipal para acompanhar todas as novidades desta 11ª edição do Correntes d'Escritas.

Sessão de Abertura divulga vencedores e desvenda revista Correntes d’Escritas 9

Infopóvoa / Póvoa de Varzim

O Casino da Póvoa foi, esta manhã, o local do arranque da 11ª edição do Correntes d’Escritas. O anúncio dos vencedores dos três concursos literários e o lançamento da revista Correntes d’Escritas 9, cujo dossiê é dedicado a Agustina Bessa-Luís, foram os pontos altos da sessão.
A Maria Velho da Costa, que com Myra venceu o
Prémio Literário Casino da Póvoa no valor de 20 mil euros, juntam-se, à lista de premiados, Miguel Rocha de Pinho, que sob o pseudónimo Alarido dos Começos venceu o Prémio Literário Correntes d’Escritas/Papelaria Locus com o conto “A História do Velho Entristecido com a Vida” e ainda os alunos vencedores do Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’Escritas/Porto Editora. E são eles: 1º prémio para os alunos do 4º ano do jardim-escola João de Deus, de Salreu, Estarreja com A Casa Misteriosa; 2º prémio para os alunos do 4º B da EB 1 de Ferreiros, Baguim do Monte, com Contou-me o meu avô; 3º prémio para alunos do 4º ano, TO2 da EB1 Monte, de Touguinhó, com João Ratinho à procura de casa. Foram ainda atribuídas menções honrosas aos alunos do 4º ano da Secção Portuguesa da Escola Europeia do Luxemburgo, exclusivamente pela ilustração de Miguelras em busca de amigos, e aos alunos do 4º ano AL4, da EB1 / JI de Arcozelo, Santo Tirso, exclusivamente pelo texto de Um anjo diferente.
As actas e declarações de voto relativas aos três prémios estão disponíveis para consulta no
portal municipal.



Momento igualmente aguardado, a apresentação da revista Correntes d’Escritas contou com uma evocação a Agustina Bessa-Luís por Inês Pedrosa. A escritora recordou o receio que tinha em “falar com a Agustina, ouvia dizer que ela era uma pessoa muito difícil, o que não é verdade”. “Quando uma pessoa ama muito uma obra tem medo desse confronto”, justificou. “Tendo trabalhado em jornalismo cultural durante muitos anos, cheguei à conclusão que os escritores até são das pessoas de mais fácil convívio, e amigos uns dos outros”, analisou a escritora. Características que se estendem a Agustina Bessa–Luís, “há nela uma disponibilidade, uma generosidade e uma vontade de apoiar”.
Analisando o seu percurso literário, Inês Pedrosa defende que “de livro para livro a sua mão foi-se tornando mais leve, a escrita mais certeira. Os seus últimos romances têm uma escrita mais transparente e rápida”. A fuga aos convencionalismos no que toca à criação de personagens e momentos de acção ou as relações humanas de que sempre fala nos seus livros são características da autora de A Sibila, nascida em Vila Meã, Amarante, a 15 de Outubro de 1922, e que “se não fosse escritora teria sido uma óptima política”. “Mais do que adorada, a Agustina precisa de ser amada”, defendeu Inês Pedrosa.
Mónica Baldaque, filha de Agustina Bessa-Luís esteve presente na sessão. “A minha mãe sempre disse que não gostava de homenagens. Há três anos que está doente e há três anos que a represento nestas situações”, contou, mostrando-se no entanto agradada com esta homenagem em forma de “belíssima revista” que conta com textos de vários autores sobre Agustina Bessa-Luís.



Mais do que uma retrospectiva da carreira literária da autora, Mónica Baldaque preferiu falar sobre as memórias que a mãe preservou e que a filha revisita. Memórias essas que se podem encontrar na obra infantil Chapéu de Fitas a Voar. “Todos nós somos responsáveis na construção de memórias das crianças. Foi isso que eu herdei da minha mãe”, afirmou, recordando as tertúlias no Diana Bar, na Póvoa de Varzim, que a mãe mantinha com personalidades como José Régio, Fausto José ou Manuel d’Oliveira, e a que Mónica Baldaque assistia nos intervalos dos seus passeios de bicicleta pela marginal poveira. A esta memória juntam-se as das férias de Verão passadas na cidade, as temporadas na Quinta dos Cavaleiros e na Casa dos Passos, onde Agustina foi buscar a inspiração para escrever A Sibila, ou na Casa do Douro.
Em representação dos escritores, valter hugo mãe dirigiu breves palavras à assistência. “Sinto uma alegria muito grande ao ver os escritores aqui reunidos”, afirmou o autor para quem “vale a pena correr o risco de conhecer os escritores porque se é verdade que nos desiludem aqui e acolá”, em alguns casos a “maravilha da obra corresponde à maravilha humana”.
No encerramento da sessão, Macedo Vieira, Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, mostrou-se preocupado com “uma ameaça que paira sobre todos nós” – os obstáculos à liberdade do pensamento e da sua expressão. No caso dos jornais essa preocupação justifica-se na medida em que a reorganização do mercado, a multiplicação dos suportes electrónicos, a queda das tiragens e das receitas de publicidade, entre outros, ameaça a sobrevivência do jornal, por isso mais permeável “à falta de transparência. Quanto menor a circulação livre de jornais num país, mais alta é a sua posição nos abusos de autoridade. Jornais financeiramente frágeis têm maior probabilidade de se comprometerem a nível ético, moral e de isenção”. Por isso, defendeu o autarca que “a perspectiva de um mundo sem jornais é, pois, em si mesma, motivo de alarme para quantos amam a liberdade e a democracia. O modelo de sociedade em que vivemos pode estar seriamente em causa”.
O livro, no entanto, continua a sobreviver, apesar de anunciada “vezes sem conta” a sua morte. “Cada vez é mais procurado e se vende mais. E não espanta que assim seja, até por essa incontornável vantagem natural que é a sua adequação à comodidade e ao prazer do leitor”. Mas, admite Macedo Vieira, que os leitores do futuro “achem natural ler num ecrã”. Mas mesmo assim acredita que “o futuro do livro, seja lá qual for, vai ser risonho. Sobretudo quando vemos o sucesso que, com vosso contributo, atingiram estas Correntes que, em torno das escritas de expressão ibérica, há 11 anos fazem crescer, na Póvoa de Varzim, a paixão pelos livros, traduzida em mais leitura e melhores leitores”.
Na sessão, destaque ainda para a colaboração com a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, que fez distribuir uns pequenos marcadores com um texto sobre os Direitos das Crianças. Neste âmbito, foram ainda lidos três textos sobre o tema por duas crianças e um adolescente.
O Correntes d’Escritas continua esta tarde, às 15h30, com a C0nferência de Abertura, proferida pela Ministra da Educação, Isabel Alçada. Segue-se, às 17h00, a 1ª mesa com o tema “Escrevo para desiludir com mérito”, uma citação de Agustina Bessa-Luís, assim duplamente homenageada.
Siga cada momento do Correntes d’Escritas no
portal municipal, onde pode também encontrar o programa.

Maria Velho da Costa vence Prémio Casino da Povoa

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
Maria Velho da Costa é a vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa com a obra Myra. O anúncio foi feito há momentos na Sessão Oficial de Abertura, no Casino da Póvoa. O júri, composto por Patrícia Reis, Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho e Vergílio Alberto Vieira, escolheu, entre 160 livros submetidos a concurso, dez obras finalistas. Eram elas: A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa; A Mão Esquerda de Deus, de Pedro Almeida Vieira; A Sala Magenta, de Mário de Carvalho; Myra, de Maria Velho da Costa; O apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe; O Cónego, de A. M. Pires Cabral; O Mundo, de Juan José Millás; O verão selvagem dos teus olhos, de Ana Teresa Pereira; Rakushisha, de Adriana Lisboa e Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio.
Maria Velho da Costa vence o Prémio Literário Casino da Póvoa depois de Lídia Jorge, com O Vento Assobiando nas Gruas (2004), António Franco Alexandre, com Duende (2005); Carlos Ruíz Záfon, com A Sombra do Vento (2006); Ana Luísa Amaral, com A Génese do Amor (2007); Ruy Duarte de Carvalho, com desmedida (2008); e Gastão Cruz, com A Moeda do Tempo (2009).
O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, é o único prémio de cariz internacional que, em Portugal, ultrapassa as fronteiras da Língua Portuguesa.
Maria Velho da Costa é licenciada em Filologia Germânica, foi professora no ensino secundário e membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Tem o Curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria e foi membro da Direcção e Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, de 1973 a 1978. Foi leitora do Departamento de Português e Brasileiro do King's College, Universidade de Londres, entre 1980 e 1987. Tem sido incumbida pelo Estado português de funções de carácter cultural: foi Adjunta do Secretário de Estado da Cultura em 1979 e Adida Cultural em Cabo Verde de 1988 a 1991. Desempenhou ainda funções na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e trabalha actualmente no Instituto Camões.
Consagrada, já em 1969, com o romance Maina Mendes, tornou-se mais conhecida depois da polémica em torno das Novas Cartas Portuguesas (1971), obra em que se manifesta uma aberta oposição aos valores femininos tradicionais. Esta publicação claramente anti-fascista e altamente provocatória para o regime, levou as suas três autoras a tribunal, tendo o 25 de Abril interrompido as sanções a que estavam sujeitas as denominadas 3 Marias: Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno.
Às teses de reivindicação feminina já enunciadas em “Novas Cartas Portuguesas", acrescenta-se, na sua obra, um inconformismo quanto aos cânones narrativos, inconformismo esse que se pode verificar também na sua obra de ensaio.
Sobre a obra vencedora: Myra é uma rapariga russa que deambula pelas paisagens tristes do Portugal contemporâneo, em fuga rumo ao Sul, mas com esperanças de voltar ao Leste de onde emigrou. Durante a longa jornada iniciática, sempre com um Pitbull Terrier por perto, ela revela um extraordinário instinto de sobrevivência, feito de “manha e força”. Conforme as circunstâncias, ora cita Camões, ora fala como a “lerdinha” que não é. E assim vai avançando por entre “criaturas íngremes”, através dos vários círculos do Mal, num mundo cheio de “dor e dano”.A primeira parte do romance é composta por uma sucessão de encontros on the road: com um camionista alemão, amante de uma pintora desbocada que faz lembrar Paula Rego; com um padre, heterodoxo ao ponto de dizer que “a castidade é porca” (enquanto transporta na sua carrinha uma mulher a morrer de SIDA); com um marinheiro cego e maneta chamado Alonso (como o herói do Quixote); entre outras personagens menores. Isto até descobrir Orlando/Rolando, um “rapaz pardo” que lhe aparece todo vestido de branco junto a um Land Rover também branco, “parado como um dócil corcel expectante”. A partir daqui, a história como que estaca na esfera deste cabo-verdiano, a quem Myra se entrega num idílio amoroso, cortado cerce por uma cena de carjacking que precipita de vez a acção no mais sórdido sub-mundo do crime.
O Prémio será entregue no sábado, na Sessão de Encerramento do Correntes d'Escritas.


“Abertura informal” do Correntes d'Escritas aconteceu ontem


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
A abertura oficial do Correntes d’Escritas acontece hoje de manhã. No entanto, ontem à noite, como Luís Diamantino referiu, decorreu, no Axis Vermar, “a abertura informal do Encontro” com o lançamento das obras Antes de ser feliz, de Patrícia Reis, e Obra Poética, de Tiago Gomes. O vereador do Pelouro da Cultura mencionou que “nunca dei tantas entrevistas como este ano. Uma das perguntas mais frequentes foi qual dos escritores presentes nesta edição é que eu gostaria de destacar. A minha resposta foi simples: todos são estrelas e todos são tratados como se fossem os únicos convidados do Correntes d’Escritas”. Dos 66 escritores, 33 vão participar no Encontro pela primeira vez. A estes, Luís Diamantino assegurou que iriam ficar rendidos à magia, aos afectos, às conversas e às cumplicidades do Correntes.
Patrícia Reis trouxe ontem, à Póvoa, a obra Antes de ser feliz. O espaço da história é a bela Figueira da Foz, guardiã de memórias de Verão e outras vivências. Um miúdo apaixona-se na idade em que os sentimentos são voláteis e sem importância. O objecto do seu amor é uma rapariga difícil, esquiva e perturbada. Esta obra surgiu com uma “encomenda” do Casino da Figueira da Foz que comemorou 125 anos. Nada melhor para assinalar a data do que uma história à volta da cidade e das suas festas.

A escritora fez parte do júri do Prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, que se reuniu, ontem à noite, após o lançamento destas duas obras, para decidir qual a obra vencedora. Patrícia Reis considerou “tramada” a lista dos dez livros finalistas, pelo que a noite se adivinhava longa. Recordamos que a obra vencedora será anunciada hoje, às 11h00, no Casino da Póvoa, na Abertura Oficial do Correntes d’Escritas.
Tiago Gomes apresentou a sua Obra Poética. O escritor, com grande sentido de humor e informalidade, disse que “não me atrevo a ler nenhum dos meus poemas”. Depois dos títulos Caixa Negra de Avião Desviado por Ataque Terrorista, Brincadeiras com Cianeto, Viola-me eléctrica ou Homem Vago em Cinzento chega aos leitores uma obra de boa poesia.
Depois da apresentação das obras seguiu-se uma sessão de poesia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Correntes d’Escritas: noite de livros e poesia antecede Abertura Oficial

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
Depois do espectáculo de teatro Apalavrado na noite do passado sábado, o programa de pré-arranque do Correntes d’Escritas oferece, hoje, 23 de Fevereiro, o lançamento dos dois primeiros livros, de um total de 23 que serão lançados durante o evento, seguido de uma sessão de poesia com poetas convidados.
Ambos os momentos terão lugar no hotel Axis Vermar, com início marcado para as 22h00. Antes de Ser Feliz, de Patrícia Reis, e Obra Poética, de Tiago Gomes, serão as novas obras apresentadas.
É desta forma que o Correntes d’Escritas inicia a sua contagem decrescente para mais uma edição, a 11ª, que começa amanhã, quarta-feira, e só termina no sábado, 27. Os escritores convidados (66), assim como editores, críticos literários, jornalistas, entre outros, estão já a caminho da Póvoa, aguardados por um público que enche os espaços por onde passa o Encontro.

Amanhã, 24, às 11h00, no Casino da Póvoa, é, então, a Sessão Oficial de Abertura do Correntes d’Escritas, altura em que são anunciados os vencedores dos Prémios Literários Casino da Póvoa e Correntes d’Escritas/Papelaria Locus e do Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’Escritas/Porto Editora.
Às 15h30, o Auditório Municipal recebe a Ministra da Educação, Isabel Alçada, que irá proferir a Conferência de Abertura, com o tema “Leitura, Escrita e Educação”. Após estes dois momentos, marcantes, começa, às 17h00, a primeira mesa de debate. “Escrevo para desiludir com mérito” é o tema que irá reunir Ana Luísa Amaral, Eduardo Pitta, Fernando J.B. Martinho, Gilda Nunes Barata e Zuenir Ventura, com moderação de Catherine Dumas.
Este primeiro dia oficial do Encontro termina no Axis Vermar, com o lançamento de seis livros às 22h00 e nova sessão de poesia às 23h00.
No portal municipal, em
www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas está disponível o programa completo de todo o evento. É também neste endereço que pode acompanhar diariamente o Correntes d’Escritas, lendo as últimas notícias.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Alterações climáticas: ciclo natural da Terra Vs. acção humana

Da esquerda para a direita: Aires Pereira, Marta Pinto e Artur Sá
Infopóvoa / Póvoa de Varzim
E se o aquecimento global estiver a impedir uma nova era glaciar? E se o desaparecimento do Homem for apenas mais uma página na longa História da Terra? Estas questões estiveram em análise na passada sexta-feira, no Diana Bar, onde Artur Sá, paleontólogo, proferiu uma palestra sobre “As mudanças climáticas ao longo da História da Terra: o que nos dizem as rochas”, perante alunos da Escola Secundária Rocha Peixoto.
Aires Pereira, Vereador do Pelouro do Ambiente, deu início à sessão chamando à atenção para alguns casos que tiveram lugar no concelho e que, no seu entender, provam que as alterações climáticas interferem, de facto, nas nossas vidas, pondo mesmo em causa a segurança da população. Deu como exemplo a destruição, recente, do paramento vertical de sustentação e protecção da Avenida Marginal de Aguçadoura, entretanto reconstruído e reforçado. “Por parte do município tem havido um cuidado imenso no que toca à protecção da população”, referiu, lamentando ainda que, por vezes “a memórias das pessoas” as impeça de ver o perigo em que ocorrem quando constroem demasiado perto do mar. “Hoje vemos que as obras feitas pelo Homem são destruídas com facilidade”, observou, uma ocorrência que, considera, é a forma de a Natureza impor o equilíbrio. “Vocês são sem sombra de dúvida o veículo através do qual conseguimos passar a mensagem”, apelou aos alunos presentes. “É com a vossa ajuda que contamos para um futuro mais sustentável”.

4600 milhões de anos. É esta a idade estimada do nosso planeta. Uma longa história repleta de mudanças ou não fosse a Terra “um planeta terrivelmente dinâmico”. O paleontólogo frisou várias vezes que, para perceber as alterações climáticas, tem que se olhar para a História da Terra como um todo, ou seja, contrapor o tempo de vida humana ao tempo geológico. “Não vai ser amanhã, mas que estamos em mudança estamos”. E uma das ferramentas que nos permitem estudar este tempo geológico do ponto de vista do clima são, precisamente, as rochas. Através do seu estudo os cientistas conseguiram, por exemplo, chegar à conclusão que a temperatura média da Terra foi sempre superior à actual e que as concentrações de dióxido de carbono nunca foram tão baixas como agora. “Quando apareceram as primeiras trilobites as concentrações de dióxido de carbono eram 20 vezes superiores às de hoje”. Também o nível médio das águas do mar teve variações assombrosas. “No tempo dos dinossauros o nível estava 200 metros acima dos valores de hoje. Há 18 mil anos tínhamos praias 110 metros acima da linha actual”.
Nos primórdios da Terra existiam já seres muito simples. Há 2700 milhões de anos a Terra assiste ao auge das cianobactérias, responsáveis pela produção de oxigénio. A teoria aponta ainda que a Terra tivesse passado por dois períodos glaciares (o primeiro há 2200 milhões de anos, o segundo há 630 milhões) antes de se dar a primeira grande explosão de vida há 560 milhões de anos, quando surgem seres vivos cada vez mais complexos. “Há evidências irrefutáveis de que a Terra já foi uma bola de gelo total”, sublinhou o paleontólogo, avançado ainda que, quando começam a surgir estes primeiros seres complexos, a Terra era composta por quatro grandes continentes. O Pólo Sul apresentava um clima temperado quente e a Terra era um deserto absoluto. Fruto da deriva dos continentes, estes foram encontrando posições diversas ao longo do tempo, uma movimentação que continua nos dias de hoje, embora imperceptível. “Num milhão de anos esta movimentação é muito significativa”, sublinhou.


“Um dos segredos do clima de hoje é o fecho do Canal do Panamá há dois milhões de anos, o que alterou as correntes marítimas. O clima actual é da responsabilidade dos mecanismos da Corrente do Golfo, quente, e da Corrente do Labrador, fria. Se este motor parar os oceanos transformam-se numa gigantesca panela de sopa podre. Pode acontecer, mas não é de um dia para o outro”, frisou.
Assim, percebe-se que o clima na Terra é composto por vários ciclos e está dependente de inúmeras variáveis. Por isso, Artur Sá afirmou que “todos os dados físicos e astronómicos dizem que nós, nesta altura, devíamos estar a entrar na era glaciar. Mas, de facto, o aquecimento global está a travar esse processo”. Assim, “o que está em causa é o Homem, não é o planeta que está a sofrer, é o Homem. Estamos em extinção”, defendeu.
Da mesma forma que as rochas permitem olhar para o passado também permitem antever o futuro. “Daqui por 250 milhões de anos teremos outro supercontinente e Portugal estará bem mais a Norte”, contou. “A biodiversidade actual será completamente substituída e só mesmo os seres mais simples sobreviverão”.
Na sessão esteve ainda presente Marta Pinto, do Centro Regional de Excelência (CRE), entidade da qual o município da Póvoa é parceiro. A representante explicou que o CRE resulta de um esforço coordenado de várias entidades da Área Metropolitana do Porto e de Organizações Não-Governamentais. “Queremos promover esta ideia de que é possível encaminharmo-nos para um mundo melhor”. Recordando que é a nossa sobrevivência que está em risco, exibiu algumas imagens de “situações insustentáveis” fruto da poluição e até da falta de ligação do Homem com a Natureza. No entanto, nem tudo é negativo. Como afirmou, cada vez mais se assistem a iniciativas importantes do ponto de vista da sustentabilidade da Terra mas “mas temos que começar a trabalhar para mudar”.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Correntes d’Escritas: Festa da Literatura aproxima-se, conheça o programa

É já na próxima quarta-feira, 24, que a Póvoa se torna no centro da literatura ibérica com a realização do Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica. O evento decorre até 27 de Fevereiro e traz 66 escritores provenientes do Brasil, de Moçambique, de Cabo Verde, do México, da Colômbia, de França, de Espanha, de Angola, do Uruguai, da Argentina e, claro, de Portugal.

Infopóvoa / Póvoa de Varzim

Como vem sendo habitual, a Sessão Oficial de Abertura marca o arranque do evento no Casino da Póvoa. A cerimónia começa às 11h00 e inclui o anúncio dos vencedores dos três concursos literários e o lançamento da Revista Correntes d’Escritas 9. Este ano, o dossiê da revista é dedicado a Agustina Bessa-Luís e, por isso, no momento do seu lançamento, será feita uma evocação da autora por Inês Pedrosa. Do Casino da Póvoa o Correntes segue para o Auditório Municipal onde, às 15h30, a Ministra da Educação, Isabel Alçada, profere a Conferência de Abertura, com o tema “Leitura, Escrita e Educação”.
Após estes dois momentos, marcantes, o Correntes d’Escritas segue o seu rumo habitual, oferecendo mesas de debate, sessões de poesia, lançamento de livros, cinema, entre muitas outras actividades.

Mesas de debate - É no Auditório Municipal e nas escolas básicas 2/3 e secundárias do concelho que decorrem a maiorias das mesas. Nelas participam os escritores, convidados a falar sobre vários temas. “Escrevo para desiludir com mérito”, Pedra a pedra constrói-se a poesia, “Passo e fico como o Universo”, Literatura: o esforço inédito das palavras, As palavras cercam-nos como um muro, “O poeta é um predador”, A Literatura perverte a imaginação, “Duvido, portanto penso” e “Cada palavra é um pedaço do Universo” são os temas das mesas que vão decorrer no Auditório. Já nas escolas, os alunos vão ter a oportunidade de ouvir os escritores falarem sobre “A voz das palavras”. Destaque ainda para duas mesas que vão decorrer no Diana Bar, para alunos de escolas de concelhos vizinhos.

Concursos Literários - São três os prémios literários atribuídos no âmbito do Correntes d’Escritas. Os vencedores são anunciados no dia 24, na Sessão Oficial de Abertura e os prémios entregues no dia 27, durante o Encerramento. Ao Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, concorrem dez obras, em prosa, seleccionadas de entre mais de centena e meia de livros que concorreram ao galardão.
Destinado a jovens entre os 15 e os 18 anos, naturais de países de expressão portuguesa, o Prémio Literário Correntes d’Escritas/Papelaria Locus tem o valor de mil euros. Este ano estão a concurso 72 contos inéditos, apresentados por jovens de todo o país e do Brasil.
Por último, este ano será atribuído pela segunda vez o Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’Escritas/Porto Editora. Dirigido às escolas e aos alunos do 4º ano do Ensino Básico, que podem concorrer com um conto ilustrado inédito, em língua portuguesa, elaborado em grupo e sob a supervisão de um professor, o Prémio conta este ano com 74 trabalhos, elaborados por alunos de escolas básicas de todo o país e ainda do Luxemburgo e de França.
O Prémio para o melhor trabalho é mil euros, atribuído à escola de onde o conto for proveniente. O 2º classificado recebe €500 e o 3º €250. A Porto Editora edita ainda os trabalhos premiados em livro, assim como aqueles distinguidos com menções honrosas, livro esse que é depois distribuído a todas as escolas participantes.
No
portal municipal pode consultar as listas de livros e trabalhos concorrentes aos três Prémios.

Lançamento de livros - 23 novos livros vão ser apresentados na Póvoa de Varzim. Na Casa da Juventude decorrem no dia 25 às 12h30 e 17h30 e no dia 26 às 17h00. No hotel Axis Vermar novas obras serão conhecidas no dia 23, 24 e 25, sempre às 22h00.

Iniciativas em destaque
- No dia 27, imediatamente antes da sessão de Encerramento, no Auditório Municipal, Rosa Lobato de Faria é homenageada. Depois entregam-se os Prémios Literários aos vencedores.
- No dia 25, às 21h45, o cinema chega ao Correntes d’Escritas com a exibição de dois documentários pelo Cineclube Octopus. São eles “Toma lá do O´Neill”, de Fernando Lopes, e “José Cardoso Pires – livro de bordo”, por Manuel Mozos.
- No hotel, ainda no dia 25, às 23h00, o Correntes d’Escritas, ciente da sua influência no mercado editorial e do interesse que desperta junto de editores, livreiros, críticos literários, jornalistas, abre-se à apresentação de projectos inovadores no que respeita ao Livro, à Leitura, à Edição. Assim, vão dar-se a conhecer os projectos Ler por aí…, O Rato da Europa e PNETLiteratura.
- Tendo em conta que o Correntes d’Escritas é o maior encontro de escritores do país e o mais prestigiante, marcando, sem dúvida, a rentrée literária, a organização dos Prémios de Edição LER/Booktailors elegeu a Póvoa de Varzim e o Encontro para a divulgação dos vencedores de 2009.
Assim, no dia 26, às 22h00, são anunciados, no Auditório Municipal, os vencedores destes Prémios, os mais importantes do sector editorial português.
- O Correntes d’Escritas estabeleceu este ano uma outra parceria, desta feita com a Universidade do Porto e com o Jornal de Letras, Artes e Ideias. A Universidade seleccionou um grupo de alunos que farão reportagens diárias sobre o Encontro. Estes trabalhos, em vários formatos, serão publicados nos meios de comunicação internos da Universidade, no portal da Câmara Municipal e no site do Jornal de Letras (JL). No final do Encontro cada jovem fará uma reportagem global. A melhor será publicada no JL, na versão impressa ou no site, de acordo com a peça realizada.
- Resultado de uma parceria entre o Correntes d’Escritas, a Booktailors – Consultores Editoriais e a Quetzal Editores será distribuído um número especial da revista B:MAG, inteiramente dedicada ao Encontro. Este Especial Correntes d’Escritas conta com textos de Afonso Cruz, António Manuel Venda, Francisco Guedes, Francisco José Viegas, Héctor Abad Faciolince, João Pombeiro, José Mário Silva, Lúcia Pinho e Melo, Luís Caetano, Luís Diamantino, Luís Ricardo Duarte, Manuel Jorge Marmelo, Manuela Ribeiro, Margarida Ferra, Milton Fornaro, Nuno Seabra Lopes, Paulo Ferreira, Pedro Vieira, Rentes Carvalho, Sara Figueiredo Costa, entre outros. A B:MAG, abreviatura de Booktailors Publishing Magazine, é uma revista especializada em edição e é totalmente gratuita.

Iniciativas Paralelas
- Para além das sessões no Diana Bar para alunos de escolas de outros concelhos, o Correntes d’Escritas inclui ainda a realização de uma Feira do Livro, presente na Casa da Juventude ao longo de todo o evento;
- Uma vez mais o Correntes d’Escritas estende-se a Lisboa, mais concretamente ao Instituto Cervantes onde, no dia 1 de Março, decorre uma 10ª mesa de debate com o tema O Livro é isto: .

No pré-arranque do evento
- O programa do Correntes oferece já algumas iniciativas antes do seu arranque oficial. Assim, no sábado, dia 20, o Auditório Municipal, recebe, às 22h00, o espectáculo de teatro Apalavrado, um projecto de Renata Portas, apresentado com o apoio do Varazim Teatro. Neste espectáculo, são dramatizados dois contos escritos propositadamente para a peça – um de Carlos J. Pessoa, com o nome “O Homem que Embala o Carrinho de Bebé” e outro por Luís Mestre, intitulado “Num dia qualquer”.
- No dia 23, para além do lançamento de livros às 22h00, o Axis Vermar é ainda palco para uma sessão de poesia.
Para saber mais sobre o Correntes d’Escritas visite
www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas
onde pode também acompanhar diariamente o evento.

As “toleradas” relembradas em conversa, ontem, no Arquivo Municipal

Infopóvoa / Póvoa de Varzim
As Toleradas da Póvoa de Varzim, título de um livro de edição municipal escrito por Celeste Coelho e Roberto Martins, foi o ponto de partida de nova edição de “À quarta (h)à conversa”, ontem, 17 de Fevereiro, no Arquivo Municipal.
O livro, editado em 2008, é o resultado de um estudo científico elaborado no âmbito da conclusão da licenciatura em História e faz um retrato da prostituição legalizada na Póvoa de Varzim, entre 1871 e 1950.
Os autores do livro explicaram, na sessão de ontem, que se serviram de várias fontes para o estudo, algumas delas conservadas no Arquivo Municipal, como os Livros de Matrículas das Toleradas, as Actas da Câmara Municipal ou os registos de entradas e saídas do Hospital. Estudaram também os códigos administrativos, os Arquivos do Registo Civil e recolheram testemunhos orais.


Desse trabalho, partilharam alguns resultados com a assistência, utentes da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim. Assim, explicaram que o Livro de Matrículas das Toleradas era um registo, obrigatório para quem se dedicava à prostituição, onde constavam dados biográficos e físicos das “toleradas” e ainda a “patroa” a quem pertenciam. Neste Livro de Matrícula eram escritos os resultados das inspecções sanitárias, obrigatórias uma vez por semana. Para além do Livro de Matricula, as “toleradas” eram portadoras de uma Cédula de Polícia Sanitária, que deviam ter sempre consigo, onde constavam os resultados das inspecções sanitárias.
Celeste Coelho e Roberto Martins chegaram ainda à conclusão que, num período inicial da prostituição na Póvoa de Varzim, as “toleradas” eram provenientes de outras zonas do país e chegavam por alturas do Verão, partindo antes do Inverno. Tinham entre 18 e 25 anos, quase todas eram solteiras, a maior parte analfabeta e com profissões humildes, como criada de serviço ou costureira. As “patroas” eram antigas prostitutas e pagavam um imposto. Os autores do trabalho contaram ainda que desconfiam que muitas destas patroas tinham “redes angariadoras”, seduzindo raparigas da província com promessas de emprego e colocando-as depois nos bordéis ou “colégios”.

Com o passar dos anos, a prostituição deixou de ser um fenómeno sazonal e os “colégios” mantinham-se abertos ao longo de todo o ano. Muitas da prostitutas eram já naturais da Póvoa de Varzim.

“Vítimas de uma sociedade que as usava mas não as protegia”, as prostitutas estavam mais expostas a doenças. De tal maneira que o Estado se preocupava com a profilaxia social, chegando mesmo a criar vários panfletos de sensibilização. As doenças sexualmente transmissíveis ou a tuberculose atingiam estas mulheres. Muitas delas sofriam de doenças não identificadas na altura, provocadas por abortos clandestinos, muitos realizados com recurso a mezinhas caseiras que podiam levar a hemorragias fatais. “Eram mulheres que só podiam contar com elas próprias”, contou Roberto Martins. Mas mesmo assim, as “toleradas” de tudo faziam para se igualarem às outras mulheres. Andavam limpas, eram educadas, vestiam-se com decoro na rua.




A prostituição na Póvoa de Varzim encontra o seu expoente no século XIX, quando a Póvoa de torna o “coração da Costa Verde”, um centro turístico devido às praias e ao Casino, sucesso turístico esse que se deve também à ligação ferroviária que ligava ao Porto. Encarada como um “mal necessário”, a prostituição colocava alguns problemas, como por exemplo a localização dos “colégios”. Entre as autoridades, havia a noção que estes deviam ficar perto “mas longe da vista”.
Com a chegada do Estado Novo, surge a questão moral e as mulheres são encaminhadas para instituições ligadas à Igreja, onde podiam aprender novas profissões. Em 1942 são proibidas as novas matrículas, sendo que a prostituição continuava a ser legal para as mulheres já matriculadas. Em 1962 é proibida por completo e em Novembro desse ano assiste-se, na Póvoa de Varzim, ao desaparecimento dos “colégios”. A prostituição entra na clandestinidade.
No final do livro, mais do que uma conclusão, os autores optaram por publicar várias histórias sobre estas mulheres, finais felizes e infelizes. Como a da rapariga que, resgatada pelo pai de um “colégio”, fugiu de casa, de volta ao bordel, trazendo consigo a irmã. Ou a de uma patroa que empregava a própria filha. “Algumas acabavam por encontrar aquilo que procuravam desde sempre, uma casa, um marido, uma família”, contou Roberto Martins, dando como exemplo as histórias de algumas mulheres que acabavam por casar.
Este é o retrato da prostituição da Póvoa de Varzim entre o século XIX e meados do século XX, motivado pelas dificuldades económicas e falta de instrução. Foi mais uma tema tratado no âmbito da iniciativa “À quarta (h)à conversa”, promovido pelo Arquivo Municipal, sempre na terceira quarta-feira de cada mês. Esta foi também a primeira sessão em que o Arquivo recebeu convidados para falar sobre o tema, uma inovação que pretende manter nas próximas sessões. Assim, em Março, no dia 17, o convidado é Armando Marques, que desempenhou as funções de Chefe do Serviço de Turismo da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim entre 1966 e 1987, e que falará sobre o Ciclo Solene e Festivo da Póvoa.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Palestra sobre as mudanças climáticas e as rochas na próxima sexta-feira



Infopóvoa / Póvoa de Varzim
A Póvoa de Varzim continua a assinalar a Década da Terra 2010 – 2020, desta vez com a palestra “As mudanças climáticas ao longo da História da Terra: o que nos dizem as rochas”, que terá lugar no dia 19, às 15h00, no Diana Bar.
Aires Pereira, Vereador do Pelouro do Ambiente, e Marta Pinto, do Centro Regional de Excelência, irão participar na Sessão de Abertura, a que se segue a palestra por Artur Sá. No final, haverá ainda espaço para o debate entre todos os participantes.
Artur Sá é licenciado em Biologia e Geologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Mestre em Geociências (Ramo Ambiente e Ordenamento do Território) pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e Doutor em Geologia (Especialização em Paleontologia) pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. É Professor Auxiliar do Departamento de Geologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, membro representante dos Professores e Investigadores na Assembleia da Escola de Ciências da Vida e do Ambiente da UTAD, membro elegível do Grupo de Investigação “Sedimentary Geology & Fossil Record” do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra e também membro Correspondente para Portugal da Subcomissão Internacional de Estratigrafia do Ordovícico (ISOS-IUGS). Coordenador Científico do Geoparque Arouca (EG/GGN/UNESCO) Artur Sá, Cidadão Honorário de Arouca e Sócio honorário da Associação de Geólogos e Geofísicos Espanhóis do Petróleo, é ainda membro da Comissão Executiva do Comité Português para o Ano Internacional do Planeta Terra (IUGS-UNESCO) e autor de 91 publicações científicas e de divulgação.Esta palestra insere-se no âmbito da exposição
“Era uma vez a Terra”, patente na Biblioteca Municipal até 22 de Fevereiro.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Defesa do interesse público motiva visita do Presidente da Câmara

Da direita para a esquerda: Macedo Vieira, Aires Pereira e Luís Diamantino. Ao fundo, o prédio que aguarda final das obras para obter licença de habitabilidade
Infopóvoa / Póvoa de Varzim
“Isto é uma coisa que vai acontecer, porque é este o superior interesse da cidade”. Esta foi a principal mensagem passada hoje pelo Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Macedo Vieira, que encetou uma visita à zona envolvente à Estação do Metro da Póvoa como forma de chamar a atenção para o incumprimento da empresa Metro do Porto, S.A., no que respeita ao arranjo urbanístico previsto.
Prevista estava também a presença do Presidente da Metro do Porto, Ricardo Fonseca, e ainda do Administrador Jorge Delgado, que, esperava Macedo Vieira, viesse a contribuir para se saber o estado do processo do concurso de obras. No entanto, ambos os representantes da Metro do Porto acabaram por cancelar a visita, “depois dos meus reparos na Assembleia Municipal”, esclareceu Macedo Vieira, recordando que na última Assembleia criticou a morosidade do processo, tendo mesmo sido aprovada, por unanimidade, uma Moção de Protesto. “O Senhor Presidente da Metro devia perceber que está ao serviço da população e tem que colocar os interesses da população e os interesses do Metro acima destas questões pessoais. Isto é um processo dinâmico. Eu, ao contrário de outros colegas que aos longos destes anos reivindicavam sempre mais obras e mais investimento, só estou a dizer que há dados novos que podem melhorar o projecto”.

A Alameda do Metro
Previsto desde o início, e da responsabilidade da Metro do Porto, estão as obras de inserção urbana desde a antiga Maconde até à Estação da Póvoa de Varzim, o que inclui a montagem das infra-estruturas, a execução de passeios e do arruamento e ainda do parque de estacionamento para 300 viaturas nos terrenos encostados à estação. O atraso nestas obras tem levado a outro tipo de problemas. Por exemplo, junto à Estação de Metro foi construído um prédio, sendo que, para tal, foi estabelecido um protocolo entre os proprietários e a Metro do Porto onde os primeiros abdicaram do direito à expropriação, cedendo área para que a Metro pudesse executar as obras de urbanização. “As pessoas agiram de boa fé”, explicou Aires Pereira, Vereador do Pelouro de Obras Municiais, também presente na visita. Porém, o prédio, concluído no final do ano passado, não pode ainda ter a licença de habitação dado que o arranjo urbanístico, que inclui a construção dos acessos, ainda não foi feito pela Metro.

A zona do parque de estacionamento
“Há outra questão para além das obras e que diz respeito ao prolongamento da Estação até à antiga Garagem Linhares”, sublinhou Macedo Vieira. “O actual proprietário está disposto a colaborar no sentido de reabilitar as instalações da Garagem, sendo que não queremos prolongar a linha propriamente dita, mas a zona de entrada e saída das pessoas. Isto resolveria o problema de segurança para os peões que têm obrigatoriamente que passar pela Estrada Nacional para chegar à Estação, pondo em causa a sua segurança, dado que os passeios são estreitos. Além de que a inserção urbana da Estação na Praça do Almada seria muito mais interessante”. No entanto, o autarca mostrou-se frustrado. “A direcção da Metro não está interessada em ouvir a Câmara Municipal. Nós só queremos informar a Metro sobre estas questões. Queremos compatibilizar o interesse público e também a possibilidade de restaurar o espaço”, esclareceu o autarca. “A obrigação de um Presidente de uma instituição deve ser a de servir melhor os interesses dessa instituição. É impensável que o Metro possa ser uma peça estratégica para a Póvoa de Varzim e que seja construído de costas para a Câmara e para a população”.
Aires Pereira esclareceu ainda que “no Plano de Urbanização da Póvoa de Varzim e no Plano Director Municipal tudo o que vier a ser construído na Garagem Linhares está condicionado à passagem e ligação entre a Praça e o Metro. Há uma predisposição para juntar o útil ao agradável. Conciliar os interesses de todos”, afirmou, partilhando ainda que a Metro do Porto informou a Câmara de que “as obras estão em fase de apreciação para se fazer o relatório no que diz respeito à proposta de adjudicação e que provavelmente no mês de Março as obras iriam ter início. Era tudo isto que nós queríamos discutir e tomar conhecimento no local”.
Mesmo sem a presença da Metro do Porto, o Presidente deslocou-se até ao local mostrando, por exemplo, que para ligar a Estação de Metro à Garagem Linhares pouco mais tem que ser feito do que derrubar um muro. Na zona onde deverá ficar o parque de estacionamento, e que vários utentes do metro usam já como tal, Macedo Vieira chamou a atenção para o aspecto degradado da zona, que facilmente se resolvia, ainda que provisoriamente, com a terraplanagem do terreno. Desse parque de estacionamento ter-se-á acesso à já apelidada Alameda do Metro, que se estende, então, até à antiga Maconde, sendo que do lado oposto nascerá uma nova rua para fazer ligação com a Rua do Século.

Abertas inscrições para Concurso de Piano


Infopóvoa / Póvoa de Varzim
Até dia 20 de Abril estão abertas as inscrições para o V Concurso de Piano, uma organização da Escola de Música da Póvoa de Varzim dirigida a estudantes do instrumento com habilitação máxima equivalente ao 5º Grau. O valor da inscrição é de €15 para os alunos da Escola e de €30 para os restantes concorrentes. A ficha de inscrição e o regulamento do V Concurso de Piano estão disponíveis aqui.
As actuações, que incluirão, em todos os níveis, uma peça portuguesa, irão ocorrer nos dias 8 e 9 de Maio. No primeiro dia, o palco será o Auditório Municipal e o intuito é encontrar os melhores do Concurso. No final das provas a pianista Teresa Vila Verde irá actuar. No dia 9, pelas 16h00, no Diana Bar, os laureados irão apresentar-se em público.
Inserido no Fórum de Saídas/Formação e Opções Profissionais, levado a cabo pelo Pelouro da Acção Social da Câmara Municipal, este Concurso de Piano pretende promover a excelência e o mérito artístico, elevar a aprendizagem e o nível de formação de todos os participantes, projectar a carreira musical enquanto realidade profissional futura, proporcionar aos alunos dos cursos livres de piano novas oportunidades no domínio da performance e contribuir para a dinamização da actividade cultural e musical.